terça-feira, 14 de abril de 2009

"Eternidade?"

As gerações existem para perpetuar o novo, que se faz antigo,
afinal de contas, não há quem resista ao sangue novo
que corre nos braços de quem, pela sorte, nasceu mais novo
por ter nascido mais antigo: porque tudo é um apego ao passado, mesmo que para livrar-se dele

A eternidade é um momento apenas
Um momento por que passam todas as coisas do mundo

Besteira pensar num autor, num livro, em amor
( porque nem o amor é eterno )
Nada é

A eternidade é um momento de todas as coisas do mundo:
de uma paisagem, das flores que morrem,
de teu pai, de tua mãe,
de amigos e todos os irmãos do mundo:
nada nasceu para ficar

É uma questão de Física:
duas coisas não ocupam o mesmo lugar no espaço
E o novo sempre vem para ficar,
para substituir o velho, que era novo

É uma questão de sangue a correr nas veias de um menino violento apelidado de futuro

Meu avô


Meu avô, mais que um pai pra mim,
Melhor amigo
Trago com orgulho estampado no peito
Seu sobrenome e apelido
Extrovertido e competente comerciante,
E papeia horas e horas no boteco
Conversando muito, mais do que vendendo
E algumas mentiras, algumas
Embora durma a tarde toda
Acorda as cinco da madruga
Pra andar pelas silenciosas ruas de Ventania
Vagando e procurando litro
Pra vender depois
(nunca vi gostar tanto de dinheiro)

Criou todos filhos e netos
Atrás daquele balcão pequeno
Daquela vendinha pequena
Mas com um coração nada pequeno
O Manoel tem todo aquele jeitão
Careca, barrigudo
Sempre com a caneta no bolso da camisa

Gosto nele o jeito homem, embora
Seja ele um homem moleque, extrovertido,
quase um anjo
Sempre com uma piadinha na manga
Joga truco
Toca sanfona
Toca viola
Quer dizer, afina viola
Porque nunca vi tocar uma musica completa

Sempre foi meu ídolo
Mais que qualquer outra pessoa
Carlos Drummond ou Fernando Pessoa

Ficarei honrado
Muito honrado
De poder ser dez por cento do que esse homem
Já fez, faz e ainda tem a fazer por todos nós